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Raiz de Mandrágora
 


 

Lembra de mim que te esqueci

 

    [Sérgio Bernardo]

   

    Candidato a cargo político não é só aquele ser de rosto liso que em vez de fazer a barba passa a plaina e gasta um bom dinheiro com lustra-móveis em ano eleitoral.

    É também um alienígena, que vem do desconhecido, talvez uma galáxia distante milhares de anos-luz, e pousa do seu lado enquanto você segue para o trabalho ou vai a caminho das compras. Mesmo sem as orelhas pontiagudas, ou os olhos negros enormes, ou a cor verde da pele indicando sua natureza marciana, você o sente como um ser de outro planeta, de quatro em quatro anos vindo à Terra como fazem certos corpos celestes. Um personagem de ficção científica, só possível na imaginação dos mais férteis escritores do gênero. Sabe o E.T.? Pois assim se parece o candidato, embora longe de possuir aquela ingenuidade do pequeno extraterrestre criado por Spielberg. Alguns estão mais para o Darth Vader, com seus planos de dominar o universo.

    O candidato é igual aos mágicos mais incríveis que já habitaram entre nós. Um Houdini ou, mais perto do nosso tempo, David Copperfield. Sua capacidade de estar em vários lugares ao mesmo tempo impressiona: é visto, em frações de segundos, numa festa de casamento e numa convenção de enxadristas. Não há convite irrecusável para ele. Estará nos lugares em que nunca esteve, até naqueles que nem sabia existirem. Aliás, em época de eleição, não é uma palavra que bane dos dicionários – até o dia seguinte ao da votação.  Muitos têm ainda um outro poder oculto: livram-se de correntes e grades com a maior facilidade, pouco importando o que tenham feito de grave para merecê-las. Basta pegar os jornais do dia para se inteirar do caso mais recente.

    Não há candidato que não seja um super-herói. Tudo pode e tudo um dia fará. Só é preciso que lhe dêem o voto para modificar o mundo no primeiro dia de mandato. Super-homem não tem sua força, nem Batman sua inteligência. E para ver este filme não acione o controle-remoto da tevê, digite um número na urna-eletrônica.

    Até outubro o candidato está aí (ao que me refiro aqui, até a última linha, é hermafrodita. Tem um perfil comum, podendo ser ele ou ela). Você pode achar chato ver e ouvir vários deles antes ou depois do almoço e do jantar, mas não saia da sala. Preste atenção nele. Cuidado para amanhã ele não fazer como o simpático português da feira a que eu ia todo sábado com minha mãe, quando era criança: te dar uma banana.

    Boa escolha.

Escrito por Sergio Bernardo às 19h15
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São João Gilberto no altar do Municipal

 

                                [Por Sérgio Bernardo]

 

            Alguém da platéia ouve o veterano cantar, jovialíssimo nos seus 77 anos, e em conversa consigo mesmo responde que sim, já foi à Bahia. Por sinal, quer logo retornar e estar nos lugares a que não foi, por falta de tempo, por economia de já parcos reais, ou pelos dois motivos somados. A Bahia é linda e Salvador enfeitiça, da paisagem vista junto ao Elevador Lacerda a cada um dos seus terreiros de candomblé. A começar pelo do Gantois.

            O baiano tem razão ao bisar no palco do Municipal a canção de Dorival Caymmi, agora estrela de verdade, no sentido brilhante da palavra. O homem branco, da bata aos cabelos, do bigode às calças, caboclo urbano da Cidade Maravilhosa, está lá, com certeza, abençoando a apresentação do amigo João Gilberto. Presente em cada nota ou verso de Você já foi à Bahia?, composta para a terra que o abrigou quando jovem. Um espectador mais doidivanas sentiu vontade de sair do teatro e ir direto para o Galeão. Prestes a acatar a provocação do cantor, amanhecendo na Praia de Amaralina.

            Muitos, escutando o ícone bossa-nova, nem lembram que logo ali na esquina o bicho pegando. Um casal mais adiante está sendo assaltado ou, um pouco mais longe, na subida de um morro, balas de fuzil se perdem como crianças em feiras lotadas. Levados a uma outra dimensão, atendem ao coro que puxa Chega de Saudade, por segundos esquecidos que o clamor geral da sua bela ex-capital há muito tem sido “chega de violência!”. Ah, que pena dos que não se deixam encantar pela magia da música, dos que não se entregam à graça da poesia... Como devem ter as vidinhas pobres de marré, pobres, pobres de marré de si.

            Dirá amanhã a crítica que já é show histórico este do homem do violão baixinho e da voz sussurrante, ao desfiar o rosário dos seus maiores sucessos em sessenta minutos (transformados em noventa com o choro do bis de meia hora). Mas, mesmo que dissesse outra coisa, quem se importa com a crítica quando existe paixão entre artista e fã? Aquele japonês pagou quinhentos reais por um ingresso de cento e vinte, só para comprovar que o gênero musical brasileiro mais tocado no mundo deve tudo àquele homem tímido e sóbrio, de pouca fala e sorrisos dados em doses homeopáticas. E até Naomi Campbell vem emprestar sua beleza à glória dessa noite.

            Noite para até quem não gosta se convencer da importância de João Gilberto e, com aplausos de pé, bater cabeça para o mestre.



Escrito por Sergio Bernardo às 20h12
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