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Raiz de Mandrágora
 


O rapaz quadrado e a moça enquadrada

                                                                                                             

                                                                                           [por Sérgio Bernardo]

           

           

Quase os últimos a sair de uma das salas de cinema do Friburgo Shopping. Atravessam o corredor que leva à escada tentando conexão com o mundo real reconstruído pelas luzes.

            – Não entendi por que o crítico do Segundo Caderno avaliou esse filme com o bonequinho aplaudindo de pé... – O rapaz de óculos está perplexo.

            – Você não gostou??? – A moça com roupa de grife não acredita no que o amigo acaba de afirmar. – O filme é genial!!!

            – Genial?! Genial era o seriado antigo que meu pai tem em DVDs. Esse aí não é o mesmo homem-morcego das histórias dos anos 60.

            – Claro que não. É melhor. Você se ligou nos efeitos especiais?

            – Efeitos especiais... Todo mundo só dá importância aos efeitos especiais. Aos tiroteios. Às explosões. Às perseguições em automóveis. Essas fórmulas repetidas dos filmes de Hollywood já deram no saco. Além do mais, no Batman não há mortes. Pelo menos, não mortes violentas.

            – Filme sem gente morrendo a cada take não vende. Não viu Tropa de Elite? Sem os carinhas torrando no microondas não teria sido sucesso de bilheteria. Isso é a realidade. O espectador quer realidade nos filmes.

            – O espectador ou os fabricantes de armas? De explosivos? De automóveis? Apelo comercial, Rê. Tudo merchandising disfarçado. Não basta pros americanos venderem seu cinema. Têm que vender também suas armas e todo o resto. Vender até sua imagem de defensores do planeta. Ou você não se tocou que o Coringa é chamado de terrorista? Ele é o Bin Laden! Depois do 11 de setembro...

            – Você e seu papo de neto da ditadura. Tudo é culpa dos americanos, né? Mas seus reaizinhos também acabaram de pôr um grão no caminhão de areia dos americanos... Por que veio ver o filme?

            (O rapaz ia responder que o Batman foi um dos mitos da infância do seu pai, o tal que possui a coleção de DVDs com as histórias do seriado antigo. Que o pai passou pra ele o fascínio pelo homem-morcego, ainda na companhia do menino-prodígio Robin. Que achava o máximo os covis dos vilões serem filmados obliquamente, dando a impressão de que os locais devotados ao mal não podem ter um aspecto normal, porque o bem é simétrico e o mal é irregular. Que o máximo de violência existente eram uns SOCS, uns POWS, uns KABLANS que não se viam, sendo substituídos por desenhos – com certeza alusão aos super-heróis nascidos nos gibis. Que o máximo de apelo sensual era a Julie Newmar e sua cintura-violão enfiadas na fantasia preta e colada ao corpo da Mulher-Gato. Mas achou que ela iria rir do que classificaria como pieguice e resolveu continuar o bombardeio de outra forma.)

            – Vim assistir pra confirmar o que disse um amigo de meu pai: que nesse O Cavaleiro das Trevas o verdadeiro protagonista é o Coringa e que o Batman não passa de um mero coadjuvante, junto com o Duas-Caras. Pois eu, sinceramente, achei que até o Harvey Dent tem mais destaque na trama que o Bruce Wayne.

            – E daí, bro? Importa de verdade é a superprodução. O megaespetáculo. Os efeitos em computador...

            – Lá vem você de novo com os efeitos, que, afinal, nem são tão espetaculares assim. Nisso, até 300 é muito melhor. E tem outra coisa: o Batman jamais atiraria um cachorro pelo vão de um prédio. Ele o faria inalar um spray paralisante.

            – Isso não atrai o público. O público quer sangue. Como há dois mil anos no Coliseu. Quer tiros, explosões, perseguições...

            Oquei, papo encerrado. Lá vem meu ônibus. Pois esse Batman do Christopher Nolan é uma droga.

            – Falou. Fique aí com sua opinião quadrada. Pra mim, é o melhor filme dos últimos tempos. Tchau.

            O rapaz sobe no Olaria-Conselheiro e a moça dobra a primeira esquina à direita. No meio do caminho passa por uma árvore, onde um morcego dependurado, indiferente à cinematografia do mundo, dorme sem sonhos.

 



Escrito por Sergio Bernardo às 09h50
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Cores de Ibitipoca
por Sérgio Bernardo

Ibitipoca (ressentido pela falta de cores)
 
     O título é o de uma pintura inacabada. Traços e curvas simples, em papel cartão A4, tão perecível como esta crônica impressa em folha de jornal. Na época pensava em retomar o pendor de menino. Diziam que desenhava bem. Meu tio Jorge, marido da tia Marlene – único dono de um Karmann-Guia que conheci – chegou a me presentear com um livro que ensinava perspectiva. Pouco me serviu. Logo troquei as formas das coisas pelos contornos das letras. E me dei ao prazer de desenhar imagens no branco da mente, transformando-as em poemas. Ainda tenho nos guardados um exemplo da junção dos dois, desenho e texto. Umas tiras de história em quadrinhos (inacabada) sobre um gato ladrão e um coelho policial.
     O fato de a pintura estar inacabada, como a história em quadrinhos, pode dar a falsa impressão de que não concluo nada. Em alguns casos é verdade. Não foram poucos os cursos de idiomas que não terminei. E também algumas histórias de amor, dissolvidas no tempo. No mais, toda a busca que empreendo é pelo ponto final. Muitas vezes, com pressa. Sim, a pressa, inimiga número um da perfeição. Todos já devem ter percebido. Daí que elegi a crônica como meio de expressão. A crônica é como o risco de uma estrela caindo: um instante de vida e acabou. Sabendo que virá a próxima estrela-cadente. E a próxima. O poema, não. O poema o persegue para sempre, exigindo atenção contínua. Quer retoques. Mostra com olhos súplices aquela parte dele que ficou malformada. A verruga que ficou pendurada no nariz e você não percebeu. A única solução para a insistência do poema é aprisioná-lo num livro. Só assim ele aceita sua imperfeição. E o permite partir em paz para a gestação de um outro.
     As cores de Ibitipoca... A primeira e única vez que lá estive foi durante umas férias, há uns sete anos. O parque estadual fica em Minas Gerais, na localidade de Conceição do Ibitipoca, próxima à cidade de Lima Duarte. Chega-se de ônibus por estrada (então) de terra, viagem sem conforto só atraente para os que encarnam o espírito de aventura. Há pousadas, simples em geral, nenhuma com grandes luxos. A vila é sedutora. Um presépio incrustado num amontoado de colinas. Uma igrejinha branca. O largo defronte e o casario em torno. Paisagens de tirar o fôlego em qualquer direção.
     As cores que evoco são as do parque, aonde fui a pé, na melhor caminhada de toda minha vida. Cores, claro, que não se descrevem. Para isso há as imagens. As fotográficas e as pictóricas. Impossíveis, no entanto, de serem como são sobre o preto-e-branco desta página. O alaranjado da água, os vários tons de verde da vegetação, o ocre de um pedaço de chão, o marrom-escuro de outro. Tudo emoldurado pelo azul. Com traços de cinza se ameaça chover. Cores que uma visita a páginas da internet talvez exemplifique, mas que só podem ser reveladas com exatidão a olhos nus.
     Quem sabe por isso a pintura nunca terá fim. A certeza da impossibilidade de reter naquele quadrado tantas tonalidades, apenas sonhadas pela mistura das três primárias dos meus bastões de tinta. Eu, que não sou nem serei um pintor, só um especialista na visão das cores.


Escrito por Sergio Bernardo às 09h37
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